Coisas para dizer para transformar uma menina em pelo telefone

Right Where It Belongs

2017.02.15 22:01 Scalira Right Where It Belongs

THROW ME IN THE LANDFILL
Havia sete anos que Mick Rory não ateava fogo a nada.
Havia jurado pelo sangue de sua mãe não começar um incêndio outra vez, não importando a beleza das chamas deflagradas a beijar e retorcer a madeira. Ou o quão bonito era vê-las crescer, uma força em si mesmas, um inferno calcinante que não deixava nada em seu caminho; vibrantes como a vida e impiedosas como a morte. Havia jurado por Leonard, o garoto que conhecera trinta anos antes no reformatório e que precisara salvar de ser esfaqueado até a morte, e com quem crescera contando estórias no meio-fio de uma estrada, bicicletas jogadas a um lado, ignorando que Lenny trazia um olho roxo e que rir, para ele, doía. Leonard, dos planos infalíveis e do sorriso gatuno que lhe fazia acreditar que tudo daria certo, no fim. Dos olhos frios, das emoções reclusas, o garoto Snart que não deixava ninguém chegar perto demais para ver o que havia por trás de suas barreiras de gelo, por trás de suas defesas tão bem construídas.
Jurou pelo mesmo Leonard que chorou à sua hospitalização.
Mick não tinha como saber com certeza.
Havia começado como sempre começa: uma chama inocente queimando em algum lugar; uma faísca. E Rory a alimentara para vê-la crescer e consumir e devorar: uma deusa dourada, implacável e cruel, verdadeira e justa. Ela o chamava, o convidava a descobrir os segredos do universo, aqueles segredos sussurrados apenas na sabedoria do fogo e, oh!, ele os queria descobrir. Os sons calavam quando o fogo falava e tudo ao redor – a casa rangendo, as vigas retorcidas, o teto desabando – nada disso importava, nada disso valia se o fogo apenas dissesse que o queria, chamasse seu nome...
Estava engolido nas chamas quando Leonard voltou por ele.
Estavam no meio de algo importante, não estavam? Mick já não conseguia se lembrar o que era. Tantos anos de vida no crime tornavam difícil distinguir os roubos pequenos dos grandes, os assaltos a mão armada dos intrincados planos milionários e com o fogo tão perto, tão quente e tão gentil, Rory não conseguia sequer lembrar-se de onde estavam. Alguém gritou que não deviam ter chamado o incendiário; uma voz tão fraca que implicava distância e pés fugidios que se afastavam do prédio, mas não os de Leonard. Os de Leonard faziam o caminho inverso, para longe da segurança e da noite clara e fumarenta e para dentro do inferno e do fogo, querentes de levar Mick com eles.
— Mick! — O ouviu gritar, não pela primeira vez. Mas o som era tão distante, tão fraco e irrisório frente ao estalar das chamas que não se voltou para vê-lo — Mick, nós temos que ir! Mick!
Outra noite Mick teria ouvido. Se as mãos de Leonard – aquelas mãos enluvadas, finas demais para esses trabalhos – o houvessem conseguido alcançar, Mick teria ouvido. Só que as chamas o engoliam em uma miríade, uma torrente, um paraíso de labaredas dançantes e sedutoras que se postavam entre ele e Lenny. Mick não podia ser alcançado. Não podia ser detido. As chamas o consumiriam e – deus, ele não negava – a morte seria bem-vinda.
Em algum momento, a voz de Lenny calou. Em algum momento, a escuridão o tragou. Em algum momento, as chamas cessaram.
Não esperava acordar.
Passou dias em tratamento intensivo. Quando foi finalmente movido a um quarto não recobrou a consciência. Foram semanas entre a realidade e a ilusão, o sonho e o desespero, alucinando na tênue linha da mortal eternidade. Mais de uma vez pensou-se morto; a voz canora de sua mãe o chamava de filho e o convidava a ir para casa. Tantos anos perdido e agora finalmente encontrava o caminho de volta – era questão de seguir e aceitar. Mas noite dessas ouviu um soluço. Um soluço que pedia para ser perdoado, que pedia desculpas, que chorava em seu leito. Na junta do pescoço com o ombro, sentiu suas lágrimas. Elas trilhavam um caminho salgado nuca abaixo e era o único gosto de realidade que este sonho ainda tinha.
— Mick — Naquela voz roubada de Lenny, quebrada de choro — Mick, eu sinto tanto.
E aquela ilusão não convencia porque Lenny jamais pediria desculpas – jamais teria pelo que se desculpar. Tudo o que fizera, todos esses anos, fora salvar Mick do inferno de ser quem era. Trazer à sua vida o mínimo de normalidade. Lenny era uma constante, uma luz em meio a tormenta de se estar perdido sem saber de onde viera ou para onde iria. Leonard o fez sentir-se como parte de algo outra vez e Mick não se sentia assim desde a infância, vivendo em uma cidadezinha campestre a oeste da civilização. Embora as memórias deste tempo não estivessem exatamente lá, uma parte de si se lembrava amado e querido. Lembrava, também, de ter uma família e de ser mais do que empecilho ou ferramenta; lembrava de pertencer e do calor dos abraços, dos afagos e dos beijos, das noites embaladas de estórias e da afeição incontida. Por que Leonard se desculparia por ser sua família?
— Mick, eu sempre... — E as palavras sussurradas só para ele ouvir eram sonho e fantasia, eram delírio e pesadelo, eram tudo o que Mick sempre quisera e mais do que podia aceitar e este Leonard era utopia que selava o que tinham de um jeito que nenhum dos dois jamais se atreveu.
Mick nunca teve como saber com certeza que aquela noite não fora um delírio. Que Leonard Snart, o próprio, viera ao seu leito e chorara por ele por pensar-se culpado de alguma mágoa só sua. Mick jamais soube, mas a lembrança desta noite – sonho ou realidade – fê-lo prometer que nada daquilo se repetiria, mesmo que implicasse se afastar para não ferir; dar as costas ao bando de Leonard sem dizer para onde ia, incapaz de crer-se estável o bastante e controlado o bastante para deter-se diante das chamas. E se tivesse que escolher entre Leonard e o fogo, não estava bem certo do que escolheria. Para viver consigo, debaixo daquela casca de corpo onde deveria ter um homem, Mick deu-lhe as costas e não olhou para trás. Leonard não o procurou.
Sete anos e as coisas continuavam iguais.
Controlar a vontade do fogo não foi fácil.
Esses anos todos foram repletos de remédios e terapia, visitas psiquiátricas e duras observações. Os grupos de apoio – Mick pagou com a língua por rir dos imbecis que a eles se juntavam – foram, talvez, a mais útil das medidas que tomara. Saber-se junto de outros seus iguais ajudava. Aplacava essa voz insistente e ranzinza, gritando que era um doido; um psicótico que, como o fogo, só era capaz de calcinar e destruir, deixando nada além de cinzas por onde quer que passasse.
Foi difícil aceitar que não teria a companhia das chamas outra vez.
Não foram poucas as vezes que se viu em recaída olhando para labaredas que subiam e estalavam e beijavam e mordiam. Embora os fogos jamais tenham saído de controle, a pontada de culpa logo virava maré e mar em ressaca e Mick se via à deriva nessas águas de autocomiseração.
Toda vez que se olhava no espelho – e ele se forçava a se encarar no espelho, a camisa puxada acima dos ombros para ver os estragos – tinha de ver os ombros e as costas lavrados de cicatrizes; marcas fundas na pele que se arrastavam para todos os lados como um polvo cujos tentáculos jamais se esticariam o bastante para naufragar navios no mar branco de suas costas. O horror que o fogo deixara manchara para sempre sua carne e sua vida.
Uma parte sua gritava que essa era sua verdadeira natureza: monstruosa, deformada, tingida pelas chamas que tanto amava e a que se entregaria sem pensar, consumido na abençoada inconsciência que o fogo traria. Mas outra parte – o todo de quem era – tinha de se lembrar que não era por ele. Era por Leonard. Porque aquelas marcas poderiam muito bem não ter acabado em seu corpo, mas em Leonard. O mesmo Leonard que se orgulhava da pele macia, das mãos finas de gentleman, da beleza que traía o fosso onde crescera com seu pai e irmã. Aquelas marcas do fogo poderiam ter-lhe tomado a vida, a forma, o corpo e a carne; incinera-lo a uma massa pútrida e informe a ser deixada para trás para ser reconhecida pelos dentes. E teria que suportar Lisa olhando para ele – para aquilo que restara do irmão – e erguendo os olhos de princesa para encará-lo com raiva, com ódio, com as chamas do fogo gritando vingança.
Todas as vezes que se via no espelho Mick Rory se forçava a ver este cenário, vivo como uma brasa que queimasse em sua mente e por trás de suas retinas. E todas as vezes que baixava a camiseta estava resoluto a seguir em frente mais um dia.
Fugiu para algum lugar da boa e velha América, para uma dessas cidades sem nome que malmente figuram em um mapa. Bom lugar para permanecer de tocaia, para esperar a poeira baixar até que as coisas se acertassem outra vez, para largar-se com as costas no chão e os pés para cima até seu cheiro desaparecer na poeira da estrada. Mas este era seu passado falando; um Mick Rory que não existia mais.
As coisas nunca se acertariam outra vez.
Este lugar era agora sua casa, inda que lar fosse uma palavra que não usaria de novo. Não era amado, tampouco temido. Os anos que ali vivera o tornaram uma constante dessa cidadezinha; um membro que era pouco mais que figuração, parte da paisagem, rotina. Tinha um emprego medíocre numa oficina mecânica e se comprazia em dar ofício às mãos. Quando elas trabalhavam, calejadas e sujas de graxa, a mente se ocupava dos detalhes e das peças, das engrenagens e dos parafusos e se afastava da escuridão que gritava pelas chamas.
Os dias passavam indiscerníveis e iguais. Era uma existência monótona, preto e branca, tão diferente dos tempos efervescentes que passara com os Snarts e seu bando. Volta e meia se pegava pensando naqueles roubos, nas expressões aparvalhadas da polícia, na pilhagem e nos espólios e ria sozinho. Seus colegas o tomavam por louco – e como estavam certos, mas pelas razões erradas! –: o imbecil musculoso que dava para falar sozinho e rir por motivo nenhum. Mick deixava que pensassem o que quisessem. Leonard o havia convencido, tantos anos antes, dos benefícios de ser subestimado e de passar despercebido.
— Ei, grandão! — Porque nesse lugar esquecido por deus ele não tinha um nome. Era “o grandão”, “você aí”, “o cara lá”. Tudo certo. — Tem alguém procurando por você!
E lá nos fundos da oficina estava Leonard Snart, o próprio, bem do jeito que Mick lembrava.
Após sete anos no escuro, Mick Rory viu as chamas outra vez.

Leonard Snart era um homem de palavra.
Ele não acreditava em deixar um dos seus para trás, muito menos em trair a confiança que lhe fosse imposta. Não eram muitas as pessoas que mereciam seu apreço e estas poucas com quem se importava eram aquelas que protegia. Leonard sabia que, em sua linha de trabalho, aqueles que você ama são sempre usados contra você; as únicas coisas que podem te ferir são as dores causadas àqueles por quem você daria a vida. Mas não se importar era a mesma coisa que não estar vivo. Lenny preferia os riscos desta afeição a uma existência vazia que não se perdoaria viver.
Assim, quando Mick Rory deu baixa no hospital – o mesmo hospital para onde Leonard o havia arrastado num desespero de que nem bem se lembrava; o hospital que tivera de pagar do próprio bolso, arrumando um emprego de fachada – e decidiu por conta que não iria voltar com eles, mas sim partir para sabe deus onde, Leonard teve que engolir o orgulho e a honra e todas as bonitas palavras ensaiadas que o fariam ficar. Teve de medir sua paciência e impedir-se de fazer algo de que se arrependeria. Teve de respirar e forçar-se a encontrar a calma; um lugar dentro de si para onde ia para esquecer de quem era. Teve de fechar os olhos e saber que era melhor assim.
Quando Mick partiu Leonard não o procurou.
Havia algo naquelas costas que sumiam na distância que diziam que essa vez não era como as outras. Que Mick não voltaria com um sorriso vagabundo e um ar de cachorro abandonado, nem que Leonard devesse procura-lo e consertar fosse lá o que houvessem quebrado. Len tentava esquecer que talvez fossem as cicatrizes – aquelas fundas e feias cicatrizes que carcomiam a carne e que rajavam os ombros e que despontavam mesmo das mangas longas dos casacos. Tentava esquecer que talvez fosse o fogo, talvez fossem as chamas, talvez fosse um chamado. E tentava esquecer que Mick Rory não voltaria atrás naquela decisão.
Melhor assim, era o mantra repetido para se convencer de que não falhara com Mick. De que não fora sua culpa as coisas terem chegado tão longe. De que não fora preciso que um dos dois quase morresse para verem que não podiam seguir em frente, não assim. Melhor assim. E tinha que se forçar a engolir essa sensação de que estava deixando Mick para morrer, como um gato velho demais e doente demais que se afasta de casa para perecer sozinho.
Os trabalhos foram surpreendentemente bons ao longo dos anos.
Leonard sabia que não ter Mick por perto tinha lá suas vantagens.
Para começar, era muito mais fácil pensar sem tê-lo por perto. Era fácil planejar seus golpes sem se preocupar se Rory conseguiria manter-se sob controle, se conseguiriam entrar e sair sem serem vistos ou se acabariam o dia engolidos em chamas. Era menos estressante; fazia bem não ter que olhar sempre atrás de si e procura-lo, não ter que se preocupar com ninguém além de si próprio durante um assalto. Mas o preço que Leonard havia pago não compensava o lucro dos ganhos. Era Lisa quem apontava as olheiras, frutos de noites mal dormidas. E resmungava por serem dois idiotas, um mais cabeça dura que o outro.
— Ele não quer ser encontrado, Lisie — Falou certa feita. Erguia os olhos das plantas dos prédios que estudava antes de haver cochilado.
— O que não quer dizer que você não deva ir atrás dele.
E aquela foi sua última palavra sobre o assunto.
Len, sendo o sujeito racional que era, teve de analisar todo prospecto possível que a situação exigia. Se – e era um grande “se” – voltasse por Mick, como as coisas seriam entre eles, então? Ele tinha de saber-se mais confiável; saber que impediria o outro caso a situação fosse outra vez tão extrema. Os pesadelos, mesmo passado anos, se repetiam iguais. Eram cacofonias de gritos e fogo e o estalar e ranger da madeira. Lembrava de acreditar que o arrastava morto para fora da casa, desesperado demais para qualquer outra coisa que não agir por impulso. De jogá-lo para dentro do carro e deixar joias e dinheiro para trás, pouco se importando se era o lucro de uma vida e todo o trabalho pelo que haviam sofrido e trabalhado e que as chamas engoliam. Não havia pedido por uma ambulância porque se acreditara sem tempo. Estivesse acordado, Mick reclamaria por Lenny estar dirigindo. Estivesse acordado, Len jamais tocaria o volante. Mas Mick não estava acordado e não iria acordar e Len precisava dirigir – e, droga, dirija! Milagre terem chegado ao hospital inteiros. Milagre, também, Mick ter vivido para contar aquela história. E Leonard o deixou ir porque não suportava a ideia de não poder protege-lo; de ter que vê-lo morrer diante dos seus olhos, ao alcance das mãos, mas ainda assim tão longe.
Levou tempo para aceitar que tinha tanto medo de ferir-se como tinha medo de feri-lo.
Quando se aquietou com a situação teve de tomar coragem para encontra-lo de novo. Sabia que Mick não o culpava, mas isso não tornava as coisas mais simples. Havia essa sensação enredada no estômago que lembrava uma ânsia; um nervosismo mal dissimulado da culpa auto infligida.
— Vá vê-lo, Leonard. — Lisa só o chamava de Leonard quando a coisa era mesmo séria — Ele vai gostar de te ver.
A isso Leonard havia sorrido como quem duvida, mas as sobrancelhas da irmã o repreendiam e o desafiavam a dizer o contrário. Vencido, Leonard Snart fez as malas para o interior, sem saber que o destino tem seu próprio jeito de brincar com a vida das pessoas. Estava de passagem comprada quando a voz de Lewis Snart o assaltou no telefone:
— Ei, rapagão — O tom, o timbre, a voz que lhe embrulhava o estômago — Estava na cidade, então pensei: por que não ligar, não é? Não é isso o que quer dizer família?
Mas Lewis Snart não era sua família desde que Leonard se lembrava.
Seu pai, Lewis, havia sido um policial, mas havia sido há muito tempo. Isso antes de aceitar os subornos e as rondas ilícitas e cair nas graças da máfia e das famiglias. Só que era um criminoso de raia miúda, desleixado e arrogante, crente de ser melhor e mais esperto do que a polícia onde trabalhava. Apenas sua cegueira insolente não via que era o mais medíocre dentre os ladrões; que seus trabalhos e serviços eram desimportantes o bastante para não serem notados, indignos de confiança e desdenhados por qualquer outro que não ele. Não, não ele, ansioso como um cão atrás de um osso, mas nojento e pérfido como um rato. Nenhum dos figurões do crime o levava a sério, mesmo que fosse sempre bom ter um ou dois tiras no bolso.
Quando pego, Lewis deu nomes que ninguém rastreou. Falou de pessoas que nunca existiram. Dedurou colegas e ligações que ninguém se importou em checar. E, quando solto sem patente ou distintivo, procurou as famílias jurando não ter aberto o bico nem dito palavra. Um larápio mais inocente acreditaria. Não foi nem preciso forçar as condições de sua prisão: ele tinha o péssimo hábito de não ser bom em nada e de entrar em seu próprio caminho. O incumbiram do roubo de uma esmeralda tão grande quanto o punho de um homem e Lewis Snart foi pego em flagrante. Resistira à prisão. Ofendera os oficiais. Ficara preso cinco anos até sua soltura e o tempo que lá passara acabaram por transformar em escória o que já era um homem podre.
Virou um bêbado incorrigível. Para esquecer, ele dizia. Esquecer que tinha uma família inútil que o arrastava; três bocas para alimentar que nada faziam além de pedir, reclamar e cobrar. Deus, dia desses se tivesse uma arma ele faria por merecer esses anos na cadeia. E deixava isso claro todas as vezes que batia na esposa. Que porcaria de comida era aquela, afinal? Ele se matava nas ruas para conseguir pôr comida na mesa e, quando o fazia, ela cozinhava o regurgito de um gato? A puta precisava apanhar para saber que o lugar dela era com a barriga colada no forno ou as pernas abertas na cama. E batia nos menores pelos gritos, pelo choro. Até pelas risadas baixas que dessem enquanto ele próprio dormia. Esses diabos tinham que aprender a respeitar o santo sono de um homem. Lenny e a irmã iam dormir aos prantos com o lombo ardendo das varadas e do açoite. Certa vez passara as mãos de Leonard a ferro quanto o molequinho tentou pegar seu troco da venda. Um dólar e setenta, para um sorvete. Tinha que aprender a não foder com ele. E não era tudo uma lição agora? Batia neles para que aprendessem a calar a boca, para aprenderem respeito, para abaixarem a cabeça e aceitar.
Dia daqueles a mulher fugiu sem os filhos. Deixou-os para trás no desespero de ver-se livre do marido. Talvez tenha crido que ele a acusaria de sequestro, de leva-los contra sua vontade. Fosse como fosse, nunca voltou para busca-los nem nunca olhou para trás para lembrar-se de que tinha família.
Leonard cresceu sendo o escudo da irmã. A pequena Lisie, tanto tempo mais nova, fora a única alegria que seus pais o deixaram. Seu sorriso de menina e risinho cristalino eram doces como o orvalho e Leonard se embevecia deles para esquecer a vida miserável que tinha. Quando os tapas e o açoite eram demais durante o dia, Lenny se achegava a ela de noite e lhe contava estórias. De princesas e dragões e de finais felizes. Ela apertava a sua mão e beijava sua bochecha e, escondido no escuro, Leonard chorava quieto para não desperta-la.
Jurou protege-la. Durante todos os anos que cresceram com aquela pobre desculpa de pai, Leonard cumpriu sua promessa. Não deixava que o homem relasse nela suas mãos. Sempre que bebia e parecia que sua ira explodiria em um dos dois, Leonard fazia questão de ser este um. Sempre ao alcance de seus tapas e de seus socos e sempre distante de Lisie. O mais que podia, pedia para que ela ficasse em seu quarto e não tivesse que ver nada que não queria. Sendo boa menina, ela obedecia. Pedia que ficasse quietinha. Pedia que fosse boazinha. E Lisie era boazinha e quieta mesmo quando as vozes erguiam oitavas e coisas voavam pela casa. Não dizia palavra nem mesmo quando seu irmão voltava para o quarto tingido de roxo, vermelho e do evanescente amarelo de abrasões que não tinham tempo de curar antes de serem cobertas por outras novas.
— Diz logo o que quer e desliga.
— Vai com calma aí, rapaz. Não erga a voz para o seu pai.
Os dedos se juntaram na ponte do nariz. Uma dor de cabeça surda surgiu de lugar nenhum.
— Mas já que quer saber, talvez eu precise de ajuda num trabalho importante.
— Não.
— Eu não diria que você está em posição de recusar. Diga olá pra ele, querida.
— Lenny! — A voz de Lisie gritou ao telefone — Lenny, não faça nada do que ele pedir, eu vou ficar bem, Len- hmmph-
— Cale essa boca, acho que ele já entendeu — O sorriso palpável do outro lado da linha — Não é, Lenny? Vai querer ajudar seu velho pai?
Leonard não teve como dizer não. Teve, também, de ver o ônibus chegar e partir enquanto ficava com os pés presos na estação.

[ Bom gente, é isso. Fim do primeiro capítulo, BUT- tem mais. Bem mais. Mas queria saber aí a opinião de vocês, porque é :'3 ]
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